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Homenagem a uma amiga.
J. Apolônio
Paraty-RJ - 2001
Ao cair da tarde, seguia no meu automóvel pela Avenida Roberto Silveira, em direção à minha casa na Boa Vista, com minhas duas filhas menores, quando à altura da Telerj, atualmente Telemar, meu carro parou por falta de gasolina. Desci do carro com minhas filhas e passamos a empurrá-lo para chegar ao posto de gasolina, que ficava muito distante do lugar em que estávamos. O veículo pouco se mexia, devido a falta de nossa força física.
Ali em frente havia uma construção de casas, com vários homens trabalhando, mas nenhum se deu ao trabalho de me ajudar. Sentia um certo desânimo quando surgiu, não sei de onde, um desconhecido que apeou de sua bicicleta e perguntou: - "A senhora precisa de ajuda?". Respondi-lhe que o carro ficara sem gasolina e tínhamos que levá-lo até o posto. Ele me disse que para empurrá-lo até lá levaríamos muito tempo, mas que ele poderia na sua condução trazer a gasolina necessária para o veículo andar.
Pediu-me uma vasilha para trazer a gasolina, mas lhe respondi que não a possuia. Ele me falou que não haveria problema, pois ele conseguiria no posto uma emprestada e depois a devolveria. Perguntou-me quanto eu precisaria de gasolina, que lhe respondi: de apenas R$ 5,00. Solicitou-me os R$ 5,00 para trazer a gasolina, quando deixei transparecer minha vacilação, pois só tinha R$ 10,00; ele, então, disse-me que traria o troco junto com a gasolina.
Nesse momento minha desconfiança transpareceu de forma acentuada, o que ele percebeu. Falou-me que ele mesmo compraria a gasolina e depois eu o reembolsaria. A sua demonstração de confiança enrubescera-me pela minha desconfiança, deixando-me vulnerável a lhe ceder meu único dinheiro.
Assim que ele se foi, assaltou-me inúmeras preocupações, pois me encontrava longe de casa com as duas filhas, sem gasolina e sem dinheiro. Foram momentos que me pareceram horas de aflição e agonia.
Não tirava os olhos da avenida por onde deveria vir aquele desconhecido; quando pude ver, ainda distante, uma pessoa vindo em nossa direção, montada numa bicicleta, que poderia ser num cavalo; com a camisa tremulando ao vento, em vez de uma armadura; com uma das mãos segurava um dos guidões, em lugar das rédeas; na outra trazia a vasilha com gasolina e, não, um escudo, tal qual um simples e humilde Dom Quixote dos tempos de hoje.
Chegando, o desconhecido apeou de sua bicicleta, devolveu-me o troco de R$ 5,00 e transferiu a gasolina da vasilha para o tanque do carro. Ao fechar a tampa do tanque, disse "obrigada" e, quando da partida do desconhecido, ainda pude ouvi-lo responder "de nada", perdendo-se na escuridão da noite.
Pude reconhecer, em que pese todas as mazelas no mundo, ainda existir pessoas de bom coração - bons samaritanos, como esse desconhecido, que como lição de vida jamais o esquecerei.